domingo, 27 de fevereiro de 2011

Já vai

E agora, com calma, pensando em tudo o que aconteceu, eu entendi. E agradeço por ter acontecido. Não foi fácil, muito menos gostoso, mas, sem dúvida, importante. Machucou tanto que agora eu consigo até mesmo ver o lado positivo disso tudo, coisa que eu me esqueci como se faz nos últimos oito meses da minha vida.

Quando uma pessoa sufoca a outra por se sentir sufocada de tristeza, não é possível seguir. E quando se diz confiar em alguém, desconfiando e procurando motivos pra isso, também não é possível ir a diante.

É triste, dá saudade, mas logo (ou não tão logo assim) tudo passa. Até as lembranças e sonhos, que até agora não me deixaram passar um dia sequer sem pensar no que já foi. Vai chegar o dia em que eu vou caminhar sem ter que evitar lugares ou vontades.

Bom vai ser quando o medo só existir assim que uma barata passar por perto, ou quando uma mariposa pousar sobre a minha cama. Ter medo do que vai embora é o pior dos medos, mas é preciso saber lidar. Hoje, com certeza, lidaria muito melhor com algumas coisas que antes me prensavam contra a parede e não me deixam ver saídas.

Por mais clichê que isso possa ser, o importante é tentar vencer, respirar tranquilamente, acordar de manhã e querer sair e não dormir mais por não querer ver ninguém. Eu passei um bom tempo sem querer fazer isso, mas hoje eu sei que vale a pena.

Processando...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Fuga

Foi à Polônia conhecer gente nova, ser bem recebida e viver. Deixou no Brasil alguns poucos amigos e familiares queridos. O quarto recentemente decorado, a casa nova, os vizinhos, o porteiro, a manicure, tudo pra trás.

Ao chegar ao país sentiu-se sozinha. Quis voltar, tentou desesperadamente ligar pra casa só pra ouvir o "alô" da mãe e, talvez assim, recuperar um pouco da força que perdera quando cruzou a porta do terminal. Ainda não havia telefone, muito menos computador por perto. Seguiu então para o café mais próximo dali, encolhendo os ombros, tentando livrar-se do vento gelado que lhe paralisava o corpo. Sentou-se sozinha, já sem frio, e abriu um jornal local. Pouco entendeu das notícias que ali estavam escritas. Finalmente foi procurar a casa onde iria morar durante um ano, a contar do dia 24 de março, quando chegara.

Pelo caminho contou pombas, carros e pessoas morenas. A cor de seus cabelos de fato se destoava de todo o resto. Era o preto em meio à imensidão de descoloridos de olhos claros.

Ao chegar na casa, disse "oi". Deu um abraço no moço que lhe abriu a porta e foi para seu quarto ajeitar as coisas. Em seguida desceu e comeu algo com o polonês e as duas espanholas que dividiriam com ela, a partir de agora, a casa e o que mais fosse possível ali. Por um instante esqueceu-se do que deixara no Brasil e começou a respirar tranquilamente. Já sem medo de cruzar com quem não queria, ou lembrar-se do que lhe fazia sofrer.