Foi à Polônia conhecer gente nova, ser bem recebida e viver. Deixou no Brasil alguns poucos amigos e familiares queridos. O quarto recentemente decorado, a casa nova, os vizinhos, o porteiro, a manicure, tudo pra trás.
Ao chegar ao país sentiu-se sozinha. Quis voltar, tentou desesperadamente ligar pra casa só pra ouvir o "alô" da mãe e, talvez assim, recuperar um pouco da força que perdera quando cruzou a porta do terminal. Ainda não havia telefone, muito menos computador por perto. Seguiu então para o café mais próximo dali, encolhendo os ombros, tentando livrar-se do vento gelado que lhe paralisava o corpo. Sentou-se sozinha, já sem frio, e abriu um jornal local. Pouco entendeu das notícias que ali estavam escritas. Finalmente foi procurar a casa onde iria morar durante um ano, a contar do dia 24 de março, quando chegara.
Pelo caminho contou pombas, carros e pessoas morenas. A cor de seus cabelos de fato se destoava de todo o resto. Era o preto em meio à imensidão de descoloridos de olhos claros.
Ao chegar na casa, disse "oi". Deu um abraço no moço que lhe abriu a porta e foi para seu quarto ajeitar as coisas. Em seguida desceu e comeu algo com o polonês e as duas espanholas que dividiriam com ela, a partir de agora, a casa e o que mais fosse possível ali. Por um instante esqueceu-se do que deixara no Brasil e começou a respirar tranquilamente. Já sem medo de cruzar com quem não queria, ou lembrar-se do que lhe fazia sofrer.
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